Uma reflexão sobre a permanência das ideias de Auguste Comte nos discursos de progresso da política brasileira contemporânea
Há algo curioso na política brasileira.
Mudam os partidos. Mudam os governos. Mudam os slogans de campanha. Mudam até mesmo as crises que dominam o debate público. No entanto, uma ideia parece atravessar gerações inteiras sem jamais abandonar completamente o centro da vida política nacional: a crença de que o Brasil está sempre a um passo do progresso.
À esquerda ou à direita, no governo ou na oposição, o discurso se repete com notável frequência. Promete-se desenvolvimento econômico, modernização da infraestrutura, eficiência administrativa, ampliação dos serviços públicos e crescimento nacional. Divergem-se os caminhos, mas permanece quase intacta a convicção de que existe um destino de progresso aguardando a sociedade brasileira.
Essa ideia parece tão natural que raramente nos perguntamos de onde ela veio.
Talvez a resposta esteja mais próxima do que imaginamos. Escrita em letras verdes sobre uma faixa branca que corta o céu azul da bandeira nacional, ela acompanha diariamente milhões de brasileiros desde a infância: “Ordem e Progresso”.
Não se trata apenas de um lema patriótico. Trata-se da sobrevivência de uma tradição intelectual que moldou profundamente a formação da República brasileira.
Por trás dessas duas palavras encontra-se o pensamento de Auguste Comte, filósofo francês do século XIX e fundador do positivismo. Para Comte, a humanidade caminhava em direção a um estágio superior de desenvolvimento guiado pela ciência, pela racionalidade e pela organização social. A ordem não era um objetivo em si mesma, mas a condição necessária para que o progresso pudesse florescer.
Mais de um século depois da Proclamação da República, seria razoável imaginar que tais ideias permanecessem restritas aos livros de história. Entretanto, a realidade parece indicar o contrário.
O positivismo desapareceu como movimento político organizado, mas muitas de suas premissas continuam presentes na forma como o Brasil pensa a política. A crença na técnica como solução para os problemas sociais, a confiança no planejamento estatal e a constante busca por indicadores de desenvolvimento revelam a permanência de uma mentalidade que, em muitos aspectos, ainda dialoga com Comte.
Isso não significa que o Brasil contemporâneo seja uma reprodução do projeto positivista do século XIX. O país mudou. A democracia se consolidou. Novas pautas surgiram. Questões ambientais, direitos humanos e participação popular passaram a ocupar espaços que dificilmente seriam imaginados pelos primeiros positivistas.
Ainda assim, permanece a pergunta.
Quando políticos prometem modernizar o país, racionalizar a administração pública e conduzir a nação rumo ao desenvolvimento, estariam apenas apresentando propostas de governo ou reproduzindo, mesmo sem perceber, uma tradição intelectual iniciada há quase duzentos anos?
Talvez o maior legado de Auguste Comte não esteja na bandeira brasileira, nem nos livros de Sociologia.
Talvez esteja na forma como continuamos imaginando o futuro.
Afinal, poucas ideias demonstraram tanta capacidade de sobrevivência na história política brasileira quanto a convicção de que existe uma relação inevitável entre ordem e progresso. E enquanto essa crença permanecer orientando os discursos públicos, uma parte do velho positivismo continuará vivendo entre nós.
