Na política, mais do que discursos inflamados no palanque, são os gestos cotidianos e o cumprimento dos acordos de bastidores que revelam o verdadeiro método de um governante. Em Cajazeiras, a prefeita Socorro Delfino, popularmente conhecida como Corrinha, parece ter definido muito cedo qual será a principal marca de sua biografia administrativa: a instabilidade crônica nas alianças, o pragmatismo frio e uma impressionante facilidade em descartar os apoios que foram fundamentais para sua sobrevivência e ascensão eleitoral. Em pouco tempo de gestão, a prefeita não apenas protagonizou rompimentos de peso no topo da pirâmide do poder local, mas iniciou um processo de desmonte que atinge diretamente a espinha dorsal do grupo político que a elegeu. O cenário que se desenha na Terra do Padre Rolim não é de mera oxigenação administrativa, mas sim de uma estratégia deliberada de isolamento e quebra de pontes, consolidando uma incômoda marca de imprevisibilidade.
O primeiro movimento dessa dança das cadeiras chamou a atenção do eleitorado ainda no início do mandato, quando Corrinha mudou rapidamente de rota em relação ao senador Veneziano Vital do Rêgo. O parlamentar havia sido um aliado direto, apoiador de primeira hora na campanha e o principal responsável por destravar emendas orçamentárias cruciais destinadas ao município. Quase do dia para a noite, as fotos sorridentes, os eventos conjuntos e as declarações públicas de gratidão eterna deram lugar a um gelado silêncio e a um reposicionamento estratégico em direção total ao grupo governista estadual. Veneziano, até então tratado como peça central e indispensável para o futuro de Cajazeiras, foi deixado sumariamente à margem. Esse primeiro gesto soou nos bastidores, no mínimo, como um ensaio de ingratidão política. Mas se o afastamento do senador paraibano já havia causado um profundo desconforto nos observadores mais atentos, o verdadeiro terremoto político ainda estava por vir, com uma ruptura que implodiu de vez a principal base de sustentação da atual gestão.
O ex-prefeito Zé Aldemir, padrinho político incontestável de Corrinha e o principal responsável por sua viabilização eleitoral, veio a público declarar que não mantém mais qualquer tipo de relação com a prefeita. O anúncio caiu como uma bomba, pois Zé Aldemir não é um aliado comum que se possa descartar sem consequências. Trata-se do arquiteto definitivo do projeto político em vigência, o líder que bancou o nome de Corrinha contra tudo e contra todos e que carregou o peso político e emocional da campanha para elegê-la. Nos bastidores da política cajazeirense, a leitura desse divórcio é clara e consensual: a prefeita fez uma opção deliberada de poder que excluiu Zé Aldemir. Essa manobra visou favorecer novos interesses e acomodações de olho na disputa proporcional, preferindo a conveniência do momento à lealdade histórica devida ao seu criador político.
Para atingir o ex-prefeito e consolidar sua nova rota de independência artificial, a gestão municipal não hesitou em avançar de forma agressiva sobre as bases remanescentes dele. Teve início, então, uma onda de demissões que atingiu em cheio os indicados e apoiadores de Zé Aldemir que ocupavam cargos comissionados e funções de confiança na estrutura da prefeitura. Ao exonerar esses servidores e aliados históricos do ex-prefeito, Corrinha não apenas cortou o cordão umbilical com seu padrinho, mas tentou asfixiar financeiramente e politicamente o grupo que lhe estendeu a mão. Essa atitude transformou o que poderia ser uma divergência administrativa em uma perseguição aberta contra aqueles que gastaram a sola do sapato na campanha de ontem.
O grande problema dessa postura não reside exatamente na troca de alianças ou na busca por novos rumos partidários, fenômenos que, bem ou mal, fazem parte do jogo político tradicional. O erro de cálculo está na velocidade estonteante e na agressividade desmedida com que essas rupturas ocorrem em Cajazeiras. Quando um governante chuta a escada de seu principal padrinho político e desmonta a estrutura de quem o colocou no poder em tão pouco tempo, o sinal emitido para o mercado político não é de força, autoridade ou independência, mas sim de uma profunda deslealdade.
Os aliados que ainda permanecem na gestão observam esse cenário de terra arrasada com uma indisfarçável preocupação. Se os gigantes que construíram a candidatura foram descartados sem cerimônia, qual será o destino dos que possuem menor peso na balança? Analistas locais e a própria população já se perguntam, de forma legítima, quem sobrará para defender a prefeita amanhã, uma vez que os principais pilares de sustentação ruíram por conveniência da própria governante. Cajazeiras assiste, portanto, à consolidação de um estilo político centralizador e arriscado, que pode custar muito caro à governabilidade a médio e longo prazo. Na arena política, a memória costuma ser longa e o troco das lideranças históricas feridas em seu brio tende a ser implacável. Mais cedo ou mais tarde, a escolha ruidosa de romper com Zé Aldemir e perseguir suas bases voltará para cobrar seu preço seja no esvaziamento político dos bastidores, seja no julgamento definitivo e soberano das urnas.
