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Lucas Ribeiro e a Herança do Silêncio

Lucas Ribeiro não pode responder pelos crimes do bisavô. Mas pode responder pela
maneira como escolhe lidar com o legado político que deles sobrevive.

Há um equívoco antigo, e cômodo, em tratar a herança como fatalidade. Ninguém escolhe o berço,
o nome ou o espólio que lhe cabem, e por isso mesmo julgar um homem pelo sangue dos seus é a
mais grosseira das injustiças, aquela que o direito civilizado abandonou quando deixou de punir o
filho pela culpa do pai. Mas a herança não se encerra no ato de receber. Ela continua, e se decide,
no que o herdeiro faz com o que recebeu. Entre suportar um legado e erguê-lo em pedestal, entre
carregar um nome e convertê-lo em credencial, vai toda a diferença que separa o que nos acontece
do que fazemos. A primeira coisa é do domínio da sorte; a segunda, do domínio da vontade. E só a
vontade responde. O problema filosófico que interessa aqui não é, portanto, de quem Lucas
Ribeiro descende. É o que ele escolheu fazer com essa descendência.

Convém, primeiro, saber de que herança se fala. Entre o auge da cana e os anos 1980, o Grupo da
Várzea foi, na Paraíba, menos um grupo de famílias do que uma forma de Estado. Os donos das
usinas às margens do rio Paraíba, entre eles os Veloso Borges, não disputavam o poder público:
eram-no. O delegado servia ao dono da terra, o voto se colhia no cabresto, e o trabalhador pagava
o cambão, os dias de trabalho gratuito que o atavam à propriedade como se ainda houvesse
servidão. Era uma ordem, e toda ordem que se sabe injusta precisa, mais cedo ou mais tarde, matar
para durar.

E matou. João Pedro Teixeira fundara a Liga de Sapé em 1958 e, em quatro anos, reunira sete mil
famílias em torno de uma ideia simples e por isso intolerável: a de que o camponês tinha direitos.
Em abril de 1962, ao voltar de João Pessoa com livros para os filhos, foi morto a tiros numa
estrada. A pronúncia judicial nomeou os mandantes, e entre eles estava Agnaldo Veloso Borges,
dono da Usina Tanques. Nenhum foi punido. Os executores, condenados, foram absolvidos em
1965, já sob a ditadura, e Agnaldo escapou por uma manobra de imunidade parlamentar montada
para esse fim. Meio século depois, em 2018, o Estado que não soubera puni-lo inscreveu o nome
da vítima no Livro dos Heróis da Pátria.

Vinte e um anos após o primeiro crime, a mesma Usina Tanques voltou à cena. Margarida Maria
Alves, que presidia o sindicato rural de Alagoa Grande e movera centenas de ações contra os
usineiros, foi assassinada à porta de casa, diante da família, em 1983. Em 1995, o Ministério
Público apontou de novo Agnaldo entre os acusados; de novo, ninguém foi condenado. Note-se o
que se repete: não apenas o crime, mas a impunidade. Ela não era um acidente do sistema. Era a
sua obra-prima. O que definia aquele poder não era a terra nem o voto, e sim a capacidade de se
subtrair ao juízo, de nunca ser alcançado, nomeado, responsabilizado. A linhagem se construiu
sobre a arte de não ser julgada.

É exatamente aqui que o pensamento de Hannah Arendt deixa de ser referência e passa a ser
instrumento. Arendt fez de uma distinção o centro de toda a sua filosofia moral: culpa e
responsabilidade não são a mesma coisa. A culpa é pessoal, prende-se a um ato e se extingue com
quem o praticou; não há culpa coletiva nem hereditária, e quem a invoca comete injustiça. A
responsabilidade política é outra coisa inteiramente. Nasce do pertencimento a uma comunidade
que dura no tempo, e é o preço de se viver entre os homens e de partilhar um mundo que não
fundamos. Dela ninguém se demite. E ela não se reparte por igual: cresce à medida que cresce o
poder de quem a carrega. Sobre o cidadão comum pesa a responsabilidade de pertencer; sobre
quem governa pesa a de representar. Governar, para Arendt, é assumir, em nome de uma
comunidade, o seu passado tanto quanto o seu futuro, porque o poder não se herda como se herda
uma casa. Herda-se como se assume uma dívida.

Karl Jaspers, mestre de Arendt em Heidelberg, deu a essa intuição a sua anatomia mais exata.
Diante da Alemanha destruída, distinguiu quatro culpas: a criminal, que os tribunais medem; a
política, que decorre de se pertencer e servir a uma ordem; a moral, que responde perante a
consciência de cada um; e a metafísica, a mais profunda, nascida da solidariedade que nos faz
co-responsáveis pelo mal cometido no mundo que habitamos. Jaspers não escreveu para acusar
um povo inteiro. Escreveu para desarmar a evasão que via por toda parte: a de quem, não tendo
cometido crime, se declarava por isso mesmo inocente de tudo. Essa evasão é o coração da
questão, porque é precisamente a que se oferece a Lucas Ribeiro. Diga-se sem qualquer
ambiguidade: ele não tem culpa criminal. Não matou, não mandou matar, não havia sequer
nascido quando o sangue foi derramado, e sustentar o contrário seria mentira. Mas a lição de
Jaspers é que a frase “não cometi crime algum” não é o fim do exame moral, e sim o seu começo.
Quando quem a pronuncia aceita representar e prolongar a tradição em cujo nome o crime foi
cometido, restam-lhe, intactas, a culpa política e a moral.

Toca-se aqui no verdadeiro objeto da crítica, que não é o sangue, mas a escolha. Existe uma
diferença radical, e não apenas de grau, entre nascer numa linhagem e fazer dessa linhagem o
fundamento do próprio poder. Nascer é acaso, e o acaso não obriga a nada. Reivindicar é ato, e
todo ato compromete quem o pratica. Reivindicar uma herança não é recebê-la de mãos abertas e
olhos fechados: é afirmar a sua legitimidade, apresentar-se como a sua continuação legítima, sacar
o crédito político, econômico e simbólico que ela acumulou. E aqui está o ponto que nenhum
herdeiro consegue contornar: não se pode reivindicar a legitimidade de um patrimônio e, ao
mesmo tempo, pôr entre parênteses a origem que o produziu, porque o patrimônio e a origem são a
mesma coisa vista em dois tempos. A autoridade que hoje abre portas é a mesma que ontem as
trancava; o capital que hoje elege é o que se acumulou enquanto se calava, se expulsava e se
matava. Quem saca esse crédito ratifica, com o gesto, tudo o que o gerou. É, nos termos de Arendt,
o gesto de quem exercita a faculdade de querer sem exercitar a de julgar: aceita o proveito do
passado e suspende o juízo sobre ele. E suspender o juízo, ensinou ela, nunca é permanecer neutro.
É já ter decidido.

É esse o gesto que a trajetória de Lucas Ribeiro traduz em ato. Chegou ao Palácio da Redenção à
frente de um projeto que se apresenta como novo, jovem e inovador, e que no entanto se sustenta
inteiro sobre a continuidade de uma linhagem: filho de senadora, sobrinho de deputado federal,
bisneto do usineiro cujo nome a pronúncia de 1962 lançou entre os mandantes. Nada disso é
ilegítimo em si, e não se trata de negar-lhe talento ou méritos. Trata-se de reconhecer que a
novidade é a fachada e a continuidade é a viga. O nome que hoje o credencia é o mesmo que
ontem descredenciava os camponeses de Sapé; a rede que o sustenta é a que se teceu na várzea; a
autoridade de que dispõe desce, sem solução de continuidade, daquela que se fez matando. Ao
reivindicar um lado dessa herança, reivindica os dois, porque são indivisíveis. Não há como
receber o espólio e recusar o que a palavra, em português, também significa: aquilo que se toma
dos vencidos.

Faltaria ainda supor que o silêncio o exime, quando é o silêncio que o condena. Lucas Ribeiro
poderia ter feito outra coisa. Poderia ter reconhecido publicamente o passado da sua linhagem;
poderia tê-lo repudiado; poderia ter prestado homenagem às suas vítimas; poderia ter marcado,
com um único gesto, a ruptura simbólica que separa o herdeiro daquilo que herdou. Cada uma
dessas escolhas estava ao seu alcance, e nenhuma lhe custaria mais do que a disposição de olhar
para trás. Escolheu, em vez disso, o silêncio. E o silêncio, na boca de quem ocupa o mais alto
cargo de um Estado, é ato público. Arendt mostrou que a recusa de julgar é, ela própria, um juízo,
e que abster-se diante do que se conhece é uma forma de tomar partido. O silêncio de Lucas
cumpre, no presente, a função que a impunidade cumpria no passado: subtrair a linhagem ao juízo.
É o mesmo mecanismo, apenas refinado. Onde antes se comprava a absolvição dos tribunais, hoje
se produz, pela recusa de nomear, a absolvição da memória. O silêncio não protege o homem;
protege a legitimidade da herança. É a sua última engrenagem, e a única que Lucas opera por
vontade própria.

Volta, no fim, a pergunta do começo, e com ela o veredicto que o argumento tornou inevitável.
Lucas Ribeiro é inocente do crime e responsável pela sua perpetuação simbólica. Não pelo que os
seus fizeram antes que ele existisse, mas pelo que ele faz, todos os dias, ao usufruir da autoridade
que aqueles atos ajudaram a fundar sem jamais dizer uma palavra sobre eles. O passado não lhe
pede vingança, nem expiação, nem penitência. Pede apenas ser nomeado, e é precisamente isso
que o silêncio recusa. Uma herança de poder que nunca reconheceu os crimes sobre os quais se
ergueu não se torna legítima porque venceu, e quem a converte em capital político sem enfrentá-la
governa sob uma legitimidade emprestada, que escolheu não pagar. Do Palácio da Redenção, o
herdeiro administra tudo, menos a redenção que o seu próprio nome carrega como promessa e
como dívida. A verdadeira herança nunca foi a usina, nem o sobrenome. Foi o silêncio. E essa
parte, seus herdeiros preferem conservar.

Lucas Ribeiro não pode responder pelos crimes do bisavô. Mas pode responder pela
maneira como escolhe lidar com o legado político que deles sobrevive.

Há um equívoco antigo, e cômodo, em tratar a herança como fatalidade. Ninguém escolhe o berço,
o nome ou o espólio que lhe cabem, e por isso mesmo julgar um homem pelo sangue dos seus é a
mais grosseira das injustiças, aquela que o direito civilizado abandonou quando deixou de punir o
filho pela culpa do pai. Mas a herança não se encerra no ato de receber. Ela continua, e se decide,
no que o herdeiro faz com o que recebeu. Entre suportar um legado e erguê-lo em pedestal, entre
carregar um nome e convertê-lo em credencial, vai toda a diferença que separa o que nos acontece
do que fazemos. A primeira coisa é do domínio da sorte; a segunda, do domínio da vontade. E só a
vontade responde. O problema filosófico que interessa aqui não é, portanto, de quem Lucas
Ribeiro descende. É o que ele escolheu fazer com essa descendência.

Convém, primeiro, saber de que herança se fala. Entre o auge da cana e os anos 1980, o Grupo da
Várzea foi, na Paraíba, menos um grupo de famílias do que uma forma de Estado. Os donos das
usinas às margens do rio Paraíba, entre eles os Veloso Borges, não disputavam o poder público:
eram-no. O delegado servia ao dono da terra, o voto se colhia no cabresto, e o trabalhador pagava
o cambão, os dias de trabalho gratuito que o atavam à propriedade como se ainda houvesse
servidão. Era uma ordem, e toda ordem que se sabe injusta precisa, mais cedo ou mais tarde, matar
para durar.

E matou. João Pedro Teixeira fundara a Liga de Sapé em 1958 e, em quatro anos, reunira sete mil
famílias em torno de uma ideia simples e por isso intolerável: a de que o camponês tinha direitos.
Em abril de 1962, ao voltar de João Pessoa com livros para os filhos, foi morto a tiros numa
estrada. A pronúncia judicial nomeou os mandantes, e entre eles estava Agnaldo Veloso Borges,
dono da Usina Tanques. Nenhum foi punido. Os executores, condenados, foram absolvidos em
1965, já sob a ditadura, e Agnaldo escapou por uma manobra de imunidade parlamentar montada
para esse fim. Meio século depois, em 2018, o Estado que não soubera puni-lo inscreveu o nome
da vítima no Livro dos Heróis da Pátria.

Vinte e um anos após o primeiro crime, a mesma Usina Tanques voltou à cena. Margarida Maria
Alves, que presidia o sindicato rural de Alagoa Grande e movera centenas de ações contra os
usineiros, foi assassinada à porta de casa, diante da família, em 1983. Em 1995, o Ministério
Público apontou de novo Agnaldo entre os acusados; de novo, ninguém foi condenado. Note-se o
que se repete: não apenas o crime, mas a impunidade. Ela não era um acidente do sistema. Era a
sua obra-prima. O que definia aquele poder não era a terra nem o voto, e sim a capacidade de se
subtrair ao juízo, de nunca ser alcançado, nomeado, responsabilizado. A linhagem se construiu
sobre a arte de não ser julgada.

É exatamente aqui que o pensamento de Hannah Arendt deixa de ser referência e passa a ser
instrumento. Arendt fez de uma distinção o centro de toda a sua filosofia moral: culpa e
responsabilidade não são a mesma coisa. A culpa é pessoal, prende-se a um ato e se extingue com
quem o praticou; não há culpa coletiva nem hereditária, e quem a invoca comete injustiça. A
responsabilidade política é outra coisa inteiramente. Nasce do pertencimento a uma comunidade
que dura no tempo, e é o preço de se viver entre os homens e de partilhar um mundo que não
fundamos. Dela ninguém se demite. E ela não se reparte por igual: cresce à medida que cresce o
poder de quem a carrega. Sobre o cidadão comum pesa a responsabilidade de pertencer; sobre
quem governa pesa a de representar. Governar, para Arendt, é assumir, em nome de uma
comunidade, o seu passado tanto quanto o seu futuro, porque o poder não se herda como se herda
uma casa. Herda-se como se assume uma dívida.

Karl Jaspers, mestre de Arendt em Heidelberg, deu a essa intuição a sua anatomia mais exata.
Diante da Alemanha destruída, distinguiu quatro culpas: a criminal, que os tribunais medem; a
política, que decorre de se pertencer e servir a uma ordem; a moral, que responde perante a
consciência de cada um; e a metafísica, a mais profunda, nascida da solidariedade que nos faz
co-responsáveis pelo mal cometido no mundo que habitamos. Jaspers não escreveu para acusar
um povo inteiro. Escreveu para desarmar a evasão que via por toda parte: a de quem, não tendo
cometido crime, se declarava por isso mesmo inocente de tudo. Essa evasão é o coração da
questão, porque é precisamente a que se oferece a Lucas Ribeiro. Diga-se sem qualquer
ambiguidade: ele não tem culpa criminal. Não matou, não mandou matar, não havia sequer
nascido quando o sangue foi derramado, e sustentar o contrário seria mentira. Mas a lição de
Jaspers é que a frase “não cometi crime algum” não é o fim do exame moral, e sim o seu começo.
Quando quem a pronuncia aceita representar e prolongar a tradição em cujo nome o crime foi
cometido, restam-lhe, intactas, a culpa política e a moral.

Toca-se aqui no verdadeiro objeto da crítica, que não é o sangue, mas a escolha. Existe uma
diferença radical, e não apenas de grau, entre nascer numa linhagem e fazer dessa linhagem o
fundamento do próprio poder. Nascer é acaso, e o acaso não obriga a nada. Reivindicar é ato, e
todo ato compromete quem o pratica. Reivindicar uma herança não é recebê-la de mãos abertas e
olhos fechados: é afirmar a sua legitimidade, apresentar-se como a sua continuação legítima, sacar
o crédito político, econômico e simbólico que ela acumulou. E aqui está o ponto que nenhum
herdeiro consegue contornar: não se pode reivindicar a legitimidade de um patrimônio e, ao
mesmo tempo, pôr entre parênteses a origem que o produziu, porque o patrimônio e a origem são a
mesma coisa vista em dois tempos. A autoridade que hoje abre portas é a mesma que ontem as
trancava; o capital que hoje elege é o que se acumulou enquanto se calava, se expulsava e se
matava. Quem saca esse crédito ratifica, com o gesto, tudo o que o gerou. É, nos termos de Arendt,
o gesto de quem exercita a faculdade de querer sem exercitar a de julgar: aceita o proveito do
passado e suspende o juízo sobre ele. E suspender o juízo, ensinou ela, nunca é permanecer neutro.
É já ter decidido.

É esse o gesto que a trajetória de Lucas Ribeiro traduz em ato. Chegou ao Palácio da Redenção à
frente de um projeto que se apresenta como novo, jovem e inovador, e que no entanto se sustenta
inteiro sobre a continuidade de uma linhagem: filho de senadora, sobrinho de deputado federal,
bisneto do usineiro cujo nome a pronúncia de 1962 lançou entre os mandantes. Nada disso é
ilegítimo em si, e não se trata de negar-lhe talento ou méritos. Trata-se de reconhecer que a
novidade é a fachada e a continuidade é a viga. O nome que hoje o credencia é o mesmo que
ontem descredenciava os camponeses de Sapé; a rede que o sustenta é a que se teceu na várzea; a
autoridade de que dispõe desce, sem solução de continuidade, daquela que se fez matando. Ao
reivindicar um lado dessa herança, reivindica os dois, porque são indivisíveis. Não há como
receber o espólio e recusar o que a palavra, em português, também significa: aquilo que se toma
dos vencidos.

Faltaria ainda supor que o silêncio o exime, quando é o silêncio que o condena. Lucas Ribeiro
poderia ter feito outra coisa. Poderia ter reconhecido publicamente o passado da sua linhagem;
poderia tê-lo repudiado; poderia ter prestado homenagem às suas vítimas; poderia ter marcado,
com um único gesto, a ruptura simbólica que separa o herdeiro daquilo que herdou. Cada uma
dessas escolhas estava ao seu alcance, e nenhuma lhe custaria mais do que a disposição de olhar
para trás. Escolheu, em vez disso, o silêncio. E o silêncio, na boca de quem ocupa o mais alto
cargo de um Estado, é ato público. Arendt mostrou que a recusa de julgar é, ela própria, um juízo,
e que abster-se diante do que se conhece é uma forma de tomar partido. O silêncio de Lucas
cumpre, no presente, a função que a impunidade cumpria no passado: subtrair a linhagem ao juízo.
É o mesmo mecanismo, apenas refinado. Onde antes se comprava a absolvição dos tribunais, hoje
se produz, pela recusa de nomear, a absolvição da memória. O silêncio não protege o homem;
protege a legitimidade da herança. É a sua última engrenagem, e a única que Lucas opera por
vontade própria.

Volta, no fim, a pergunta do começo, e com ela o veredicto que o argumento tornou inevitável.
Lucas Ribeiro é inocente do crime e responsável pela sua perpetuação simbólica. Não pelo que os
seus fizeram antes que ele existisse, mas pelo que ele faz, todos os dias, ao usufruir da autoridade
que aqueles atos ajudaram a fundar sem jamais dizer uma palavra sobre eles. O passado não lhe
pede vingança, nem expiação, nem penitência. Pede apenas ser nomeado, e é precisamente isso
que o silêncio recusa. Uma herança de poder que nunca reconheceu os crimes sobre os quais se
ergueu não se torna legítima porque venceu, e quem a converte em capital político sem enfrentá-la
governa sob uma legitimidade emprestada, que escolheu não pagar. Do Palácio da Redenção, o
herdeiro administra tudo, menos a redenção que o seu próprio nome carrega como promessa e
como dívida. A verdadeira herança nunca foi a usina, nem o sobrenome. Foi o silêncio. E essa
parte, seus herdeiros preferem conservar.

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