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O algodão pode voltar a florescer na Paraíba?

Entre memória histórica, dados recentes e uma oportunidade real de desenvolvimento regional.

Escrever sobre a retomada do algodão na Paraíba em 2025 é, para mim, um exercício que exige cautela analítica e compromisso com os dados. Durante décadas, o algodão ocupou papel central na economia paraibana, estruturando territórios, relações sociais e fluxos comerciais. Seu colapso, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, deixou marcas profundas. No entanto, os sinais recentes indicam que não se trata apenas de nostalgia econômica, mas de uma oportunidade concreta — especialmente quando observada à luz do algodão agroecológico e orgânico.

Sinais concretos de retomada


Dados recentes do Governo do Estado da Paraíba, em parceria com a EMPAER e a Secretaria de Desenvolvimento da Agropecuária e da Pesca (SEDAP), apontam que a produção de algodão voltou a crescer no estado. Em 2024, a safra paraibana registrou cerca de 162 toneladas, envolvendo mais de 300 famílias agricultoras, distribuídas principalmente pelo Agreste e Brejo paraibanos. Em 2025, os projetos oficiais indicam expansão tanto da área plantada quanto do número de produtores beneficiados.
Embora modestos em escala absoluta, esses números ganham relevância quando contextualizados: o modelo adotado é predominantemente agroecológico, voltado ao algodão orgânico e, em alguns casos, ao algodão colorido — segmentos com maior valor agregado e demanda crescente nos mercados nacional e internacional.

O cenário nacional favorece a cultura


No plano macroeconômico, o contexto também é favorável. O Brasil permanece entre os maiores produtores e exportadores mundiais de algodão. Segundo dados da CONAB e do IBGE, a produção nacional mantém trajetória robusta, com estimativas positivas para as safras de 2024/2025 e 2025/2026. Esse cenário cria uma janela de oportunidade para estados nordestinos ocuparem nichos específicos da cadeia, sobretudo aqueles ligados à sustentabilidade e à produção familiar.
A Paraíba, portanto, não concorre diretamente com os grandes polos mecanizados do Centro-Oeste. Sua estratégia — corretamente, a meu ver — passa por outro caminho: qualidade, certificação, organização coletiva e identidade territorial.

Agroecologia como estratégia, não como discurso


A literatura técnica da Embrapa Algodão e pesquisas acadêmicas recentes demonstram que o algodão agroecológico é viável no Semiárido quando associado a práticas adequadas de manejo, consórcios produtivos e assistência técnica contínua. Além disso, o algodão colorido reduz custos ambientais na indústria têxtil ao eliminar etapas de tingimento, o que aumenta seu apelo junto a marcas sustentáveis.
Esse modelo dialoga diretamente com a realidade da agricultura familiar paraibana, reduzindo a dependência de insumos químicos importados e ampliando a autonomia dos produtores.

Agroecologia como estratégia, não como discurso


É preciso, contudo, evitar leituras excessivamente otimistas. A retomada do algodão na Paraíba enfrenta limites claros:
• vulnerabilidade climática;
• dificuldade de acesso a mercados especializados;
• necessidade de certificação (orgânica e de comércio justo);
• carência de infraestrutura local de beneficiamento.
Sem políticas públicas consistentes, crédito direcionado e fortalecimento das cooperativas, o risco é que o algodão permaneça restrito a experiências pontuais, sem impacto estrutural sobre a economia regional.

Por que 2025 importa


A meu ver, 2025 representa um ponto de inflexão. Ou o estado consolida a cadeia do algodão agroecológico — integrando produção, beneficiamento e comercialização — ou perderá uma oportunidade estratégica de desenvolvimento regional sustentável. A retomada do algodão não deve ser vista como retorno ao passado, mas como reinterpretação produtiva da história, alinhada às exigências do século XXI.


Se bem conduzido, o algodão pode voltar a ser, não o “ouro branco” de outrora, mas um vetor de renda, organização social e identidade econômica para o interior da Paraíba.

Entre memória histórica, dados recentes e uma oportunidade real de desenvolvimento regional.

Escrever sobre a retomada do algodão na Paraíba em 2025 é, para mim, um exercício que exige cautela analítica e compromisso com os dados. Durante décadas, o algodão ocupou papel central na economia paraibana, estruturando territórios, relações sociais e fluxos comerciais. Seu colapso, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, deixou marcas profundas. No entanto, os sinais recentes indicam que não se trata apenas de nostalgia econômica, mas de uma oportunidade concreta — especialmente quando observada à luz do algodão agroecológico e orgânico.

Sinais concretos de retomada


Dados recentes do Governo do Estado da Paraíba, em parceria com a EMPAER e a Secretaria de Desenvolvimento da Agropecuária e da Pesca (SEDAP), apontam que a produção de algodão voltou a crescer no estado. Em 2024, a safra paraibana registrou cerca de 162 toneladas, envolvendo mais de 300 famílias agricultoras, distribuídas principalmente pelo Agreste e Brejo paraibanos. Em 2025, os projetos oficiais indicam expansão tanto da área plantada quanto do número de produtores beneficiados.
Embora modestos em escala absoluta, esses números ganham relevância quando contextualizados: o modelo adotado é predominantemente agroecológico, voltado ao algodão orgânico e, em alguns casos, ao algodão colorido — segmentos com maior valor agregado e demanda crescente nos mercados nacional e internacional.

O cenário nacional favorece a cultura


No plano macroeconômico, o contexto também é favorável. O Brasil permanece entre os maiores produtores e exportadores mundiais de algodão. Segundo dados da CONAB e do IBGE, a produção nacional mantém trajetória robusta, com estimativas positivas para as safras de 2024/2025 e 2025/2026. Esse cenário cria uma janela de oportunidade para estados nordestinos ocuparem nichos específicos da cadeia, sobretudo aqueles ligados à sustentabilidade e à produção familiar.
A Paraíba, portanto, não concorre diretamente com os grandes polos mecanizados do Centro-Oeste. Sua estratégia — corretamente, a meu ver — passa por outro caminho: qualidade, certificação, organização coletiva e identidade territorial.

Agroecologia como estratégia, não como discurso


A literatura técnica da Embrapa Algodão e pesquisas acadêmicas recentes demonstram que o algodão agroecológico é viável no Semiárido quando associado a práticas adequadas de manejo, consórcios produtivos e assistência técnica contínua. Além disso, o algodão colorido reduz custos ambientais na indústria têxtil ao eliminar etapas de tingimento, o que aumenta seu apelo junto a marcas sustentáveis.
Esse modelo dialoga diretamente com a realidade da agricultura familiar paraibana, reduzindo a dependência de insumos químicos importados e ampliando a autonomia dos produtores.

Agroecologia como estratégia, não como discurso


É preciso, contudo, evitar leituras excessivamente otimistas. A retomada do algodão na Paraíba enfrenta limites claros:
• vulnerabilidade climática;
• dificuldade de acesso a mercados especializados;
• necessidade de certificação (orgânica e de comércio justo);
• carência de infraestrutura local de beneficiamento.
Sem políticas públicas consistentes, crédito direcionado e fortalecimento das cooperativas, o risco é que o algodão permaneça restrito a experiências pontuais, sem impacto estrutural sobre a economia regional.

Por que 2025 importa


A meu ver, 2025 representa um ponto de inflexão. Ou o estado consolida a cadeia do algodão agroecológico — integrando produção, beneficiamento e comercialização — ou perderá uma oportunidade estratégica de desenvolvimento regional sustentável. A retomada do algodão não deve ser vista como retorno ao passado, mas como reinterpretação produtiva da história, alinhada às exigências do século XXI.


Se bem conduzido, o algodão pode voltar a ser, não o “ouro branco” de outrora, mas um vetor de renda, organização social e identidade econômica para o interior da Paraíba.

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